Cine Maloca: sintonia com as ocupações, formatos heterogêneos

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Por Cláudia Mesquita

Em sintonia com as ocupações de espaços urbanos e a retomada das terras indígenas, o Cine Maloca, mostra de filmes do Festival de Inverno da UFMG, vai armar sua tela em cinco espaços abertos do campus pampulha, compartilhando experiências registradas, provocadas e/ou recriadas pelo cinema. Estarão em cena atos de resistência à partilha desigual e aos projetos excludentes das cidades; memórias das lutas pela terra; retomada de territórios indígenas; espaços reinventados, bricolagens, formas variadas de ocupar.

Projetando imagens em espaços como o bosque da Escola de Música, o gramado atrás da Reitoria, a Fafich ou a Estação Ecológica, o Cine Maloca propõe retirar o cinema das salas fechadas e privadas e participar da reinvenção do território do campus pelo 46º Festival de Inverno da UFMG. A mostra busca um pequeno inventário de formas pelas quais o cinema se alia às lutas pelo direito à terra, à moradia e à cidade, engajando-se nas ocupações de espaços reais e simbólicos no Brasil: prédios para morar, ruas, um shopping center, regiões alvejadas pela especulação imobiliária, terras para caçar e pescar.

A mostra, com formatos heterogêneos, privilegia o documentário, apresentando desde um clássico do cinema político brasileiro (Cabra Marcado para Morrer) até trechos de obras em processo, engajadas em movimentos hoje em curso. É o caso do #OcupeEstelita, cujo processo vem sendo registrado e narrado nas montagens de Marcelo Pedroso, Pedro Severien e outros colaboradores, que não apenas reportam, mas participam da luta contra a especulação imobiliária no centro de Recife.

Ampliando as discussões propostas pelos trabalhos do Cine Maloca, o Festival vai disponibilizar na Olaria (Estação Ecológica) um acervo com cerca de 20 outros títulos, para consulta individual ou em grupos. O Cine Olaria, aberto de 21 (segunda) a 25 (sexta) de julho, das 13h às 17h, mantém o eixo-temático da Maloca, apresentando múltiplas formas de ocupar em cena.

Conheça um pouco de cada filme

SESSÃO 1 – CINEASTAS INDÍGENAS
Os Tikmu’un (Maxakali) e os Guarani protagonizam filmes que põem em cena seus lugares ancestrais, violentamente reduzidos pela ocupação dos brancos. Os Maxakali caçam além das cercas, enquanto os Guarani recuperam politicamente, pelo trabalho de memória ou pela retomada, seu território de origem.

Desterro Guarani (Ariel Ortega, Patrícia Ferreira, Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho) (40 min)
Ariel Ortega faz uma reflexão sobre o processo histórico do contato dos Mbya-Guarani com os colonizadores, e tenta entender como seu povo foi destituído de suas terras.

O caso da aldeia Jaguapiré (Vídeo nas Aldeias) (5 min)
Fragmento de Martírio, produção do Vídeo nas Aldeias. Em processo de realização, o longa irá contrapor o discurso dos ruralistas – “vítimas da invasão de suas propriedades pelos índios” – a registros de despejos de aldeias inteiras, em imagens históricas das décadas de 1980 e 90. Os relatos do processo de deportação e confinamento ao qual foram submetidos os Kaiowá elucidam a origem do problema presente, os equívocos dos primeiros anos da política indigenista do governo brasileiro, e a relação de pertencimento e responsabilidade que os Guarani mantêm com seus territórios sagrados.

Caçando Capivara (Derli Maxakali, Marilton Maxakali, Juninha Maxakali, Janaina Maxakali, Fernando Maxakali, Joanina Maxakali, Zé Carlos Maxakali, Bernardo Maxakali, João Duro Maxakali) (57 min)
Caçadores Tikmu’un saem com seus cães e espíritos aliados em busca da capivara. Cantos, olhares e eventos. Intensidades que se agitam sob um plano de aparente silêncio.

SESSÃO 2 – CABRA MARCADO PARA MORRER
Homenagem a Eduardo Coutinho e à luta pela terra no Brasil. “Divisor de águas” no cinema brasileiro (J.C.Bernardet), Cabra opõe as memórias dos vencidos ao apagamento da História. Reunidos pelo filme, os camponeses reencontram um passado de luta e de resistência, depois da repressão e da dispersão sofridas durante a ditadura militar.

Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho) (120 min)
Em 1962, o líder da liga camponesa de Sapé (PB), João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem de latifundiários. Um filme sobre sua vida, reconstituição ficcional da ação política que levou ao assassinato, começa a ser rodado em 1964, com direção de Eduardo Coutinho. As filmagens, com participação de camponeses do Engenho Galiléia (PE) e da víúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, são interrompidas pelo golpe militar de 31 de março de 1964. Dezessete anos depois, em 1981, Eduardo Coutinho retoma o projeto e procura os participantes do filme interrompido.

SESSÃO 3 – OCUPAÇÕES URBANAS
De um prédio na região portuária do Rio de Janeiro ao cais José Estelita (Recife) e à ocupação Mauá, no centro de São Paulo; das ruas das cidades aos corredores assépticos de um shopping center, espaços são ocupados, reinventados, usufruidos, em atos de resistência, inscritos ou provocados pelo cinema, à partilha desigual e aos projetos excludentes das cidades.

Praça Walt Disney (Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira) (20 min)
Abordagem singular da vida urbana contemporânea, o documentário descreve a um só tempo um bairro, uma cidade e um país. O lugar real: Boa Viagem, Recife, Pernambuco, Brasil.

À Margem dos Trilhos (Marcelo Pedroso, Pedro Severien) (5 min)
Uma reflexão sobre o tema da habitação social, a partir do trajeto feito pelo trem do forró que sai das proximidades das torres gêmeas, passa pelo cais José Estelita e cruza a ocupação da Vila Sul, em Recife (PE).

Ação e reação (Marcelo Pedroso, Pedro Severien) (3 min)
Ação: Ocupe Estelita apresenta… Reação: Governo do Estado de Pernambuco, Prefeitura do Recife, Consórcio Novo Recife apresentam…

Ocupar, Resistir, Avançar (Ernesto de Carvalho, Luís Henrique Leal, Marcelo Pedroso, Pedro Severien) (6 min)
Ocupação da Prefeitura do Recife. 30 de Junho e 01 de Julho de 2014.

Vida Estelita (Edinéa Alcântara, Ernesto de Carvalho, Marcelo Pedroso, Pedro Severien) (10 min)
Integrantes do Movimento Ocupe Estelita fazem uma reflexão política e pessoal sobre o processo de discussão da cidade. “Vida Estelita” constrói os principais eixos da transformação social que está em curso a partir do olhar desse grupo de ocupantes. O filme nasceu numa roda de conversa, e os relatos articulados nesta narrativa revelam um pedaço do imaginário coletivo. Os testemunhos contidos aqui se somam às inúmeras ações e reflexões de um grupo de pessoas que juntos fazem o Ocupe Estelita.

Mauá: Luz ao Redor (Juliana Vicente) (5 min)
No centro de São Paulo, a comunidade Mauá vive há mais de 5 anos, hoje sob ameaça de despejo. No entorno da Rua Mauá encontra-se a vida das 230 famílias que habitam a ocupação: escolas, locais de trabalho, hospitais. Seu deslocamento pode causar graves danos a uma população para a qual não é oferecido outro destino.

Entre (Vladimir Seixas) (10 min)
Os momentos da ocupação de um prédio no centro da cidade do Rio de Janeiro.

A Ditadura da Especulação (Zé de Abreu) (10 min)
No Distrito Federal, grandes empreendimentos passam o trator em culturas, vidas e saberes locais. Filme engajado na resistência indígena contra a destruição do Santuário dos Pajés, ameaçado pela construção do bairro Noroeste, empreendimento imobiliário de luxo.

Hiato (Vladimir Seixas) (19 min 30s)
Em agosto de 2000, um grupo de manifestantes organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. O episódio obteve grande repercussão na imprensa nacional. O filme recupera imagens de arquivo e apresenta entrevistas com manifestantes e pensadores, sete anos após o acontecimento.

Proibido Parar (Christian Caselli) (6 min 30s)
Estranho fato ocorrido em julho de 2010 no Largo da Carioca, Centro do Rio de Janeiro, informa sobre o clima de “choque” que paira sobre a cidade.

SESSÃO 4 – BRANCO SAI, PRETO FICA
Para recuperar a história real do baile black Quarentão, violentamente fechado pela polícia, na Ceilândia (DF), em 1986, o filme faz um surpreendente desvio pela ficção científica. Especulações distópicas sobre Brasília se misturam aos testemunhos de dois sobreviventes, os atores Marquim e Chokito. Se o Plano Piloto é o “lado de dentro” da História, Adirley Queirós opta novamente pelo fora: os atos, memórias e invenções do entorno periférico.

Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós) (95 min)
Um Baile Black. Tiros e repressão. Uma geração amputada.

SESSÃO 5 – OCUPAÇÕES URBANAS 2
Jogar bola na rua, duelar rap sob um viaduto, produzir um cinema-camelô… Ocupações e invenções que desconcertam, que embaralham os lugares estabelecidos, que afirmam o que está à margem e redesenham a face do possível.

Cine Camelô (Clarissa Knoll) (15 min)
A história de um cineasta-ambulante que vende filmes de curta-metragem na Rua 25 de Março, maior centro de comércio popular de São Paulo, de acordo com a demanda dos clientes.

A Rua é Pública (Anderson Lima) (10 min)
Um grupo de amigos acorda com vontade de jogar uma pelada na rua. A busca por um espaço acaba percorrendo outro caminho: o da luta pelo território livre do brincar. Realizado na ocupação Eiana Silva, em Belo Horizonte.

Rap, O Canto da Ceilândia (Adirley Queirós) (15 min)
Diálogo com quatro consagrados artistas do Rap nacional (X, Jamaika, Marquim e Japão), todos moradores da Ceilândia, Distrito Federal. O filme relaciona suas trajetórias com a ocupação e construção da cidade onde moram. São artistas que vêem no Rap a única forma de expressar suas vivências e sentimentos, afirmando-se como moradores da periferia de Brasília.

Silêncio, viaduto em obras (Gabriel Zaidan, Maria Teresa Moreira) (18 min)
O movimento Viaduto Ocupado resiste ao projeto da Prefeitura de Belo Horizonte para o Viaduto Santa Tereza.

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